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05/02/2019
Pecuária bovina na berlinda


Estudo apresentado no Fórum de Davos atrela a criação de gado a problemas ambientais e de saúde pública e sugere a substituição da carne por proteínas alternativas, mas a pesquisa não reflete a realidade da produção bovina nacional.

O Futuro da Carne. Esse é o tema da pesquisa apresentada no Fórum Mundial de Davos, que aconteceu nos dias 22 e 23 deste mês nos Alpes suíços. O estudo publicado pela Universidade de Oxford defende a substituição da carne bovina por proteínas alternativas, como carne sintética, tofu, insetos, lentilha, nozes e jaca. Os impactos ambientais para a produção de carne estão entre os argumentos contra um bom churrasco. A pesquisa aponta que a produção de carne bovina foi a responsável por 25% das emissões de gases do efeito estufa do setor de alimentos em 2010. Mas há controvérsias sobre o assunto. “Os dados de emissões da pecuária precisam ser revistos. Todos os balanços consideram apenas o que é emitido pelo gado, nunca o que é removido pelo sistema produtivo”, diz o engenheiro agrônomo Maurício Palma Nogueira, sócio da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária, expedição técnica que percorre o Brasil avaliando as condições da bovinocultura de corte no País.

De fato, os dados apresentados na pesquisa de Oxford não condizem com a realidade da pecuária tropical brasileira. Segundo o estudo, são gerados 23,9 quilos de CO2 por 200 quilocalorias (Kcal) de carne produzida, uma quantidade alta em comparação com insetos ou feijão, que emitem 1 quilo de CO2 por 200Kcal. No entanto, segundo Alexandre Berndt, pesquisador de Sistemas de Produção Sustentáveis da Embrapa, “No Brasil, em pastagens com o uso de tecnologias básicas, as emissões são 10 vezes menores do que as apresentadas no relatório”. E, se forem consideradas as fazendas com sistemas de produção pecuária de ponta ou as que fazem a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o saldo de emissões de CO2 pode ser negativo (mais informações abaixo).

DIFERENTES PADRÕES DE CONSUMO

Outro ponto levantado foi o prejuízo à saúde provocado pela ingestão excessiva de carne bovina. Mas a premissa reflete a realidade da América do Norte e de alguns países da Europa, não do mundo como um todo. Os EUA têm um consumo per capita de 37,2 quilos/ano; o Canadá, 26,2 quilos/ano; a França, 23,3 quilos/ ano; os Emirados Árabes e o Japão estão na casa de 9,5 quilos/ano; e a China registra 5,7 quilos/ano. “O consumo abusivo de qualquer alimento é prejudicial à saúde”, diz Berndt. O argumento é compartilhado por Nogueira: “A sugestão de uma alimentação balanceada, envolvendo diversas opções de alimentos, terá um efeito mais benéfico do que a troca de carne por tofu, jaca, lentilha ou hambúrgueres produzidos em laboratório por um valor equivalente a R$ 93 o quilo nos EUA”, diz. “No Brasil, a carne bovina mais cara é comercializada a R$ 22 o quilo, na média”, acrescenta o consultor.

A pesquisa faz uma projeção para 2050 e classifica como inaceitável para os objetivos de desenvolvimento sustentável frente às mudanças climáticas um aumento da produção de carne bovina para alimentar 10 bilhões de pessoas nos padrões de consumo da América do Norte e da Europa. “Isso é outro exemplo de desconhecimento sobre os sistemas de produção. Se considerar apenas o modelo de clima temperado, o raciocínio faz sentido. Mas o grande potencial de produção proteica está nos trópicos”, diz Nogueira.

O pesquisador da Embrapa e o sócio da Athenagro são defensores de uma pecuária “bem-feita”, com adoção de boas tecnologias. Hoje é baixa a produtividade média no Brasil: 4,5 arrobas por hectare/ano. Mas os dados do último Rally da Pecuária, que percorreu as principais regiões produtoras brasileiras, apontam que os 10% mais eficientes têm uma produtividade média de 50 arrobas por hectare/ ano. “Num cálculo hipotético, se todos atingissem este nível e esta produtividade, só o Brasil poderia ofertar 130 milhões de toneladas de carcaça bovina na mesma área de 165 milhões de hectares que hoje é destinada à pecuária”, diz Nogueira, acrescentando que a produção mundial de carne bovina foi de 72milhões de toneladas no ano passado.

CARNE SINTÉTICA

Segundo Berndt, a pesquisa de Oxford concentra seus argumentos na defesa de novas estratégias biotecnológicas para produzir “sucedâneos” ou substitutos para a proteína animal verdadeira. A carne artificial aparece como opção. Ela é produzida a partir de amostras de células retiradas do músculo animal que são replicadas em laboratório. O produto é defendido por grupos protetores dos animais, que alegam que neste modelo não há dor. Em 2016, a empresa Memphis Meats, sediada na Califórnia, causou um alvoroço ao lançar as primeiras almôndegas “sem sofrimento”.

Do ponto de vista da energia necessária, hoje a carne artificial praticamente se iguala à pecuária. “Mas, considerando o cálculo de carbono correto, incluindo as remoções do sistema de produção da pecuária, não há sentido algum falar em carne de laboratório do ponto de vista sustentável, porque é emissora de carbono”, diz o consultor da Athenagro. O relatório também aborda a perspectiva futura de redução no custo de produção desse tipo de carne. “Mas o estudo omite a queda de preços que ocorrerá na bovinocultura. Os custos atuais de produção em alta tecnologia chegam a ser de 30% a 40% mais baixos que os custos da pecuária tradicional”, explica o coordenador do Rally da Pecuária.

COMBATE AO DESPERDÍCIO

Estatísticas da Organização das Nações Unidas para Agricultura (FAO) apontam que um terço da produção global de alimento se perde pelo caminho e vai parar no lixo. “Eu defendo a busca de um equilíbrio entre consumo e questões ligadas ao meio ambiente. Consumo no sentido amplo da palavra, não só de alimentos como de energia elétrica, combustíveis e bens materiais”, diz Berndt.

No futuro, ele aposta na coexistência. “Acredito que haja espaço nos mercados globais para estes produtos ‘disruptivos’, sobretudo em sociedades mais avançadas em termos de desenvolvimento social e econômico”, explica o cientista. “Os hambúrgueres vegetarianos ou sucedâneos vão ocupar um pouco o mercado de carne moída de proteína animal. Mas quem está puxando a demanda são EUA e Europa, os mais ricos”, acrescenta.

No entanto, é preciso observar a cultura alimentar dos povos, um aspecto que a pesquisa de Oxford deixa de lado. Comer insetos no Brasil é algo que causa asco na maioria das pessoas, enquanto na China é um hábito corriqueiro. “Eu não me sinto confortável que alguém de fora venha ditar regras para o consumo dentro da minha casa. Este é um costume cultural, e não vão conseguir impor a uma nação”, diz Berndt.

O mercado doméstico consome 80% da produção nacional. Mesmo assim, com os 20% restantes, o Brasil ocupa a posição de maior exportador de carne bovina do mundo. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), as vendas do produto ao exterior registraram o recorde de 1,64 milhão de toneladas em 2018, volume responsável por uma receita de US$ 6,5 bilhões.

CARNE CARBONO NEUTRO

Na atividade pecuária de ponta, a carne produzida é carbono neutro. Isso por causa dos solos agrícolas tropicais, reconhecidos pela FAO como o grande reservatório de carbono em ambiente terrestre. As pastagens têm duas biomassas proporcionais, a aérea (gramínea) e a raiz. Em um pastejo bem manejado, a cada 30 dias o gado come a pastagem. Em busca de equilíbrio, a planta mata parte das raízes, porque já não precisa de tanto volume, uma vez que a “folhagem” diminuiu. Mas, quando começa a rebrota, as raízes crescem novamente. “Este ciclo de deposição de raízes mortas no solo significa matéria orgânica, que significa carbono, que é retirado da atmosfera e se prende nas raízes”, diz Alexandre Berndt, pesquisador de Sistemas de Produção Sustentáveis da Embrapa. Em fazendas com tais práticas, as emissões de CO2 para produção de carne são neutralizadas.

E o balanço de carbono pode ser negativo para os pecuaristas que fazem a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), modelo que integra diferentes sistemas produtivos na mesma área. Isso porque, além das raízes mortas das gramíneas depositadas no solo, as raízes e os troncos das árvores também sequestram carbono. “É preciso de 20 a 30 árvores para neutralizar a emissão de um animal. Se há 40, o balanço é negativo. A produção de carne presta um serviço ao sequestraro carbono da atmosfera”, finaliza o pesquisador.

Fonte: Estadão


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