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15/03/2019
Presença de mulheres no agronegócio aumenta


Depois de ouvir as projeções para a economia e o câmbio em 2019 feitas por Zeina Latif, economista-chefe da XP, uma espectadora toma o microfone e faz a primeira pergunta: “Como devemos lidar com os filhos que receberam e foram mais protegidos do que as gerações anteriores e, agora, têm dificuldade em assumir responsabilidades?” Minutos depois, outro questionamento pouco ligado às perspectivas apresentadas por Octavio de Lazari, presidente do Bradesco. Uma pessoa na plateia pergunta se é possível mudar a imagem perpetuada por algumas telenovelas que retratam fazendeiros como grileiros.

Não houve estranheza para a falta de lógica cartesiana depois dos números apresentados, como é comum em eventos em que só se vê ternos e gravatas na plateia. Com 1.600 mulheres presentes, muitas delas fazendeiras, o 3o Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, em São Paulo, é uma lição de diversidade de pensamento. As muitas conversas paralelas e as trocas de números de telefone, mais do que cartões ou apertos de mão, mostram que há outros jeitos de se relacionar e trocar experiências.

Explicitavam também uma tendência sobre a qual a academia tem se debruçado nos últimos tempos: o crescimento da relevância feminina no agronegócio e seu significado. Apesar de a presença das mulheres no campo não ser nova, tem havido um aumento consistente de sua participação em termos de qualificação, empregos com carteira assinada e oportunidades de trabalho e do surgimento de novas lideranças.

O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, começou a divulgar um amplo estudo em que, pela primeira vez, dedicou-se a entender ao mesmo tempo a presença feminina no campo tanto da porteira das fazendas para dentro quanto para fora, incluindo-se aí agroindústria, transporte, varejo e outras áreas correlatas. Entre outras descobertas, a pesquisa constatou que, entre 2004 e 2015, o número de mulheres no agronegócio aumentou em 8,3%.

Além de estarem mais presentes, as vagas ocupadas pela população feminina são melhores. A participação das trabalhadoras com ensino superior na área foi de 7,6% para 15% no período. Já aquelas com ensino médio, que antes representavam 31% do total, foram para 42%. Na outra mão, as vagas para funcionárias sem instrução caíram de 11,3% para 5,6%. Já as ocupadas pelas mulheres que cursaram apenas o fundamental caíram adequadas e únicas, gerando de 50,6% para 37,3%.

Com a maior qualificação, a participação feminina no agro também envelheceu. O maior peso do crescimento foi dado pelas mulheres casadas e com mais de 30 anos de idade. “O aumento da formalização dos postos de trabalho ocorreu na economia como um todo e para os dois sexos nesse período”, afirma Nicole Rennó Castro, pesquisadora da equipe de macroeconomia do Cepea e uma das coordenadoras do trabalho. “Para o agronegócio, foram criadas vagas bastante qualificadas, que foram ocupadas por mulheres de maneira mais acentuada.”

Mesmo com o aumento da participação feminina, porém, o agro ainda é uma área dominada por homens. Em 2015, as mulheres respondiam por 28% dos trabalhadores totais no campo. Na economia, de maneira geral, a participação feminina já era de 40%. “Ainda é um mundo predominantemente masculino, mas que vem mudando de maneira acelerada”, diz Nicole.

Além do crescimento do agronegócio de maneira geral, que equivalia a 23,5% do PIB em 2017, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a evolução da tecnologia e mudanças no processo produtivo favoreceram a tendência. “O agronegócio de hoje não é mais o da força física”, afirma José Luiz Tejon, professor e coordenador do MBA da Audencia Business School, em Nantes, e responsável pelo conteúdo do congresso. “A tecnologia transformou semeadeiras e colheitadeiras em máquinas de altíssima tecnologia e, com essa disrupção, não é preciso músculos – e sim estudo – para tirar delas o melhor resultado.”

A maior presença de grandes corporações e o fato de muitos cargos terem aparecido no setor de serviços – 81% das trabalhadoras do agronegócio moram em cidades – também ajudaram a multiplicar as oportunidades. Como resultado prático, se constata, por exemplo, que o número de alunas das área de engenharia agronômica, florestal e de gestão ambiental da Esalq/USP passou de 36% para 44% do total entre 2002 e 2016.

Na outra ponta, a participação das mulheres mais velhas e, consequentemente, líderes na área, também cresceu. Enquanto em 2004 11% das produtoras rurais eram mulheres, em 2015 elas somavam 15% do total. A maior parte delas se dedica à pecuária, que exige menos recursos, mas também gera menos riqueza.

A feminilização no agronegócio não passou despercebida pelas empresas. De portais de notícia, blogs e canais no YouTube a consultorias especialistas em promover a igualdade de gênero na área, passando por muitos seminários e encontros, as corporações fazem questão de marcar presença no movimento.

A produtora de etanol Raízen, por exemplo, promoveu neste ano um seminário sobre o tema, em Jaú (SP). Já a divisão agrícola da DowDuPont, a Corteva Agriscience, mostrou no congresso do fim de 2018 histórias inspiradoras de produtoras rurais de Brasil, Argentina, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, África do Sul, Quênia e Indonésia. Também lançou, em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC) e a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), a Academia de Liderança das Mulheres do Agronegócio, um programa de capacitação com duração de oito meses. Será a primeira edição, que tende a se expandir em larga escala nas próximas.

Foi depois de participar de um encontro que reuniu 700 produtoras rurais no Rio Grande do Sul que os organizadores do congresso realizado em São Paulo suspeitaram haver espaço para um evento de porte nacional. Resolveram, em 2016, criar o congresso, esperando 300 participantes. Receberam o dobro de inscrições. Na segunda edição, em 2017, havia mil mulheres. Já no ano passado, o encontro foi planejado para receber 1.500 inscritas. Participaram 1.600 “Se tivesse espaço para 2.000, teria lotado”, diz Alexandre Marcilio, diretor da Transamerica Expo Center, responsável pelo evento. “Havia um hiato da voz da mulher nessa área porque muitas têm presença ativa nos núcleos familiares, sem conseguir o mesmo espaço para se expressar.”

Essa transformação não acontece sem custo. Outro núcleo da Esalq/USP, o Grupo de Estudos de Carreira, Organizações e Pessoas (Gecop), se dedica, entre outras coisas, a entender o comportamento dentro das organizações, e também colocou sua lupa no feminino no agronegócio. O resultado mostrou que, além de mais masculina, a área é mais machista do que o resto da economia de maneira geral.

“A mulher no campo sofre mais do que em outros setores com os estereótipos de gênero”, diz Heliani Berlato, professora do departamento de economia, administração e sociologia da Esalq/USP e coordenadora do Gecop. “É comum, por exemplo, alunos em estágio, mesmo em grandes multinacionais, relatando que, enquanto os rapazes são destinados a práticas no campo, as meninas conseguem vagas apenas nas áreas administrativas.” A formação dos dois gêneros é absolutamente a mesma, e elas também sonham em sujar a botina de terra.

“Tivemos um indicativo importante de que houve aumento real nos salários das trabalhadoras desde 2004”, diz Nicole, sobre a nova fase da pesquisa do Cepea, a respeito do machismo no agro. Outra pista é a satisfação das mulheres em relação a seu trabalho. Tendo em vista que o agronegócio é considerado um setor tradicionalmente masculino, os pesquisadores acreditavam que as mulheres do agro fossem, em média, menos satisfeitas que as outras trabalhadoras do país. O estudo do Cepea mostra que os indicativos ligados a jornada, salários e igualdade das trabalhadoras do agronegócio (de 67,9%, como satisfação geral) são bastante semelhantes ao das trabalhadoras urbanas (67,4%).

Como no resto da economia, é para os cargos de liderança que se percebe a maior diferença, nas fazendas, entre os fabricantes de insumos, na agroindústria ou nos agrosserviços. Em 2015, a cada 10 dirigentes dessas áreas, apenas 3 eram mulheres. A mesma proporção se aplicava aos cargos de gerência. Em 2004, eram 2,6. “Melhorou, mas a desigualdade entre homens e mulheres quanto à ocupação de cargos de decisão persiste”, diz Nicole.

Há quase seis meses, Téia Fava, pecuarista e diretora da Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat) em Barra do Garças (MT), precisou renovar um cadastro numa revenda de peças para trator. Cliente antiga, ouviu que precisaria de apresentar o CPF do pai ou do marido para continuar comprando na loja. “Tenho a fazenda no meu nome há 12 anos e preciso de ouvir isso?”, pergunta ela. “É discriminação e crime.”

Segundo Téia, foi a primeira vez que viveu uma situação tão explícita desse tipo. Ela diz encarar como curiosidade as perguntas sobre como consegue cuidar de uma fazenda com 1.300 cabeças de gado e uma distribuidora de eucalipto tratado, que tem crescido e passou a atender a toda a região do Vale do Araguaia. Além disso, lida com os vizinhos xavantes. Vez por outra, diz, ameaçam colocar fogo em pastos e reservas dela e de seus vizinhos para caçar. “Já dirigi trator, carregadeira e esteira e faço isso porque sei que dou conta”, diz. “Essa coisa de ser delicadinha e ficar em casa esperando nunca fui eu.”


Há muitos relatos semelhantes, alguns bem mais pesados. Advogada e professora de direito, com mestrado nos Estados Unidos, Elza Leite de Moraes Andrade, de 54 anos, cresceu ouvindo do pai que a principal fazenda da família seria do irmão. “É uma discriminação que começa em casa”, diz. “Minha mãe e minha avó colocavam as meninas para ajudar na cozinha, enquanto os meninos podiam ir com o pai ajudar a separar o gado e a abrir pastagens.”

Quando sua mãe morreu, em 2001, Elzinha, como é conhecida, resolveu brigar por sua parte na herança. Então com 36 anos, três filhos e um marido portador de hepatite C, percebeu que era importante garantir seus direito e de sua família. “Briguei muito com meu pai, e foi muito desgastante porque meus três irmãos não quiserem se indispor com ele”, afirma Elza. “Meu pai achava que o negócio era dele, e eu estava furtando parte do patrimônio.”

No fim, todos os irmãos foram beneficiados. Só que os homens receberam os melhores lotes quando a fazenda foi dividida. “A minha era a pior parte de todas”, afirma. “Totalmente degradada e sem água.”

Conquistado o direito, as etapas seguintes não foram mais fáceis. Por um lado, ela precisava ser obedecida e respeitada, tanto dentro quanto fora da fazenda. Algo difícil na prática. “Você vai comprar uma coisa e o cara acha que vai enganar você facilmente porque você é uma mulher”, afirma. “É só precisar de negociar um bezerro para ele querer passar a perna, porque pensa que, por você ser mulher, é burra. Ainda mais sendo loira, tudo bem que loira falsa, e de olho verde igual a mim, é pior ainda.”

Por outro lado, sua formação no direito, apesar de útil, estava aquém do que precisava para lidar com cria, recria e engorda, as principais atividades da pecuária. “Perdi a conta de quantos cursos fiz na Esalq e na Embrapa”, diz Elza, que, além de gado, arrenda terras para o cultivo de soja em Goiás.

A busca pelo aprendizado e pela construção de uma rede de apoio é mencionada com muita frequência pelas mulheres presentes no congresso. “Fui aprendendo aos poucos com os funcionários, meu cunhado e os cursos da cooperativa”, diz a citricultora Marilza Beraldi, de Paranavaí (PR). Ela também herdou uma fazenda há quase 20 anos, com a morte do marido. À época com 39 anos de idade e três filhos, ela tinha apenas o diploma do ensino médio e foi cursar administração de empresas para poder cuidar da fazenda.

No congresso, Marilza estava acompanhada de um grupo de produtoras de várias cidades do Paraná, que se organizaram a partir da cooperativa Cocamar. “Lá a gente tem cursos mais técnicos”, diz Lucila Gimenez, produtora de soja, milho e cítricos da região. “Aqui é para entender o que está acontecendo no Brasil e no mundo, e a gente não é de se intimidar: já passamos dessa fase.”

Elza, por exemplo, criou os filhos com a produção da fazenda após a morte do marido. Dirige 2.000 km a cada 15 dias porque os filhos moram em São Paulo. Manteve esse estilo de vida por também gostar das opções culturais da cidade e de se vestir sem parecer masculina, como é obrigada quando está na fazenda, para não perder o respeito conquistado a duras penas. Também faz parte de um grupo de WhatsApp do qual participam apenas produtoras.

“Os homens gostam de contar vantagem, seja para falar do tamanho do plantel, seja do preço da arroba”, afirma Elza. “Precisávamos de trocar experiências, aprender, falar de nossas dificuldades com quem pudéssemos confiar.”

É uma realidade que parece estar se espalhando pelo país. Primeira mulher a ocupar uma diretoria da Sociedade Rural Brasileira (SRB) nos cem anos de existência da entidade, Teka Vendramini diz ter percorrido o Brasil, nos últimos dois anos, participando de dezenas de encontros apenas de mulheres, compartilhando suas histórias e aprendizados. “O Brasil inteiro está se organizando em cooperativas e formando núcleos femininos”, afirma Teka.

Para ela, mais do que estatística, o aumento da participação feminina já vem tendo efeitos práticos no setor agropecuário. Num embate que aconteceu no fim do ano passado, na Assembleia Legislativa de São Paulo, no qual os ruralistas queriam derrubar o veto à exportação de bois vivos, por exemplo, foi ela quem articulou uma posição entre diferentes entidades. “Todo mundo sabe da existência e da atuação do outro, mas não há uma coesão na hora de agir”, afirma. “Fiquei um mês lá, vendo, aprendendo. Como eu era a única mulher entre mais de 50 confinadores, exportadores e produtores, pude articular para a gente se unir e conversar.” Um pedido de telefone daqui e um cafezinho dali, e todos estavam com a mesma agenda.

A presença feminina, porém, não significa necessariamente redução dos conflitos, numa área marcada pela defesa intransigente de interesses. Bruno Bassi, pesquisador e coordenador do observatório jornalístico De Olho nos Ruralistas, lembra de muitos momentos nos quais as mulheres estiveram à frente de grupos de interesse, inclusive de maneira agressiva. Cita fazendeiras e autoridades femininas públicas, que tiveram presença em conflitos graves, sangrentos e receberam denúncias de muitas frentes com interesses contrários aos seus. “A visão idílica de que sob lideranças femininas não há conflitos não se prova ao longo da história”, afirma Bassi. “Não é o gênero que muda um quadro de desentendimentos.” De todo modo, a transformação do peso dos gêneros no agronegócio parece trilhar um caminho inevitável.


Fonte: Valor Econômico.


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